Por: Equipe NetFighter | 27 de abril de 2016

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Foto: Marcus Rezende
Foto: arquivo pessoal

Primeira postagem da Coluna de Taekwondo do Netfighter

Taekwondo Marcial e Taekwondo Olímpico

Resumindo de forma bem didática a história do taekwondo, para em seguida adentrar em uma reflexão relativa à dualidade entre o taekwondo marcial e desportivo olímpico, poderíamos sintetizar da seguinte forma: idealizada em 1955 pelo general do exército coreano Choi Hong Hi, a modalidade nasceu com forte influência do caratê Shotokan, sendo acrescentado ao conteúdo programático, técnicas de artes genuinamente coreanas.

Dessa forma, Choi formatou um estilo de luta em pé, na qual a velocidade e a plasticidade dos movimentos envolvendo saltos e chutes variados distinguiria o caratê coreano (como foi chamado nos EUA) das demais modalidades já existentes.

O plano de Choi era formar instrutores e os enviar aos principais países da Ásia, Europa e América do Norte e Sul. E assim foi feito poucos anos depois.

Chegando ao Brasil nos anos de 1970 os instrutores da modalidade abriram suas academias e trataram de levar o taekwondo às ruas, para que a população travasse contato com aquela nova forma de luta em pé, na qual saltos e chutes variados de enorme plasticidade os levassem a praticar aquele novo estilo.

O sucesso foi imediato. As academias lotaram. Os giros e saltos, antes vistos somente nos cinemas e protagonizados por Bruce Lee e outras estrelas das artes marciais, bem como quebramentos de tijolos e telhas com os punhos, chegavam ao Brasil por meio do taekwondo.

Naquela época, dizer que o praticante desta arte marcial fazia um esporte era quase uma heresia. O taekwondista daquela época se preocupava fortemente com o apuro técnico do movimento e, especialmente, com o fortalecimento das extremidades dos pés, pernas, mãos e braços.

Porém, bem no início dos anos de 1970, um novo governo assumiu a Coreia e o criador do taekwondo era afastado dos poderes decisórios relativos à modalidade.

Já assentado em alguns países importantes do mundo, um processo de esportivização do taekwondo foi iniciado com a criação da Federação Mundial, ao mesmo tempo em que federações nacionais também se formavam em todos os países que dispunha de instrutores coreanos.

Regras então foram estabelecidas. Do confronto direto, foram retiradas diversas técnicas do aprendizado original. Socos no rosto, cotoveladas, joelhadas, chutes abaixo da cintura, ataques com as pontas dos dedos não poderiam ser aplicados nas competições sob pena de punição ou desclassificação.

O único equipamento de proteção que o praticante poderia contar era com o colete de tórax feito de bambu cujo objetivo era evitar lesões mais sérias. Os protetores de cabeça, no entanto, só apareceram em 1987, em razão do histórico de lesões provocadas pela violência do impacto dos chutes. Também porque a não inclusão deste equipamento poderia traduzir-se em empecilho à chegada do taekwondo aos Jogos Olímpicos.

Podemos inferir que o taekwondo passava a ser encarado como um esporte, visto que era cotado  como nova modalidade Olímpica. As aulas dentro das academias passaram a ter um viés curricular diferenciado e bem mais voltado ao treinamento de competição.

Para se ter uma ideia, o fortalecimento de dedos e extremidades das mãos praticamente foi banido do currículo. Poucas academias dispunham, por exemplo, de equipamentos voltados para isso. Treinamentos de cotovelada e joelhadas ficaram restritos a um programa curricular a ser apresentado tão-somente no momento em que se mudava de faixa. Movimentos de saltos, amiudadamente treinados nos anos de 1970, foram negligenciados em Escolas de Taekwondo mais voltadas para as competições.

A proteção aos lutadores foi aumentando. Eles já adentravam à área de competição com coletes de tórax, capacete, protetores de pernas e braços e uma proteção genital.

Ao ser apresentado nas Olimpíadas de Sídney na Austrália, no ano de 2000, a modalidade se tornaria aos olhos da imprensa mundial, não mais uma arte marcial, e sim um esporte regrado a chutes rápidos desferidos com altíssima velocidade e força na altura do tronco, buscando a consignação de um único ponto. Os chutes rodados (de enorme apuro técnico) visando o contra-ataque, foram ficando menos requisitados nas competições de alto nível. O chute no rosto, por exemplo, possuía o mesmo peso dado ao chute simples no tronco, servindo apenas aos critérios de desempate. Os treinadores passaram, dessa forma, a priorizar os movimentos semicirculares diretos, duplos e triplos.

Mas isso foi modificado a partir de 2002, quando o chute no rosto passou a valer dois pontos. Pouco depois aumentado para três ou quatro pontos dependendo da complexidade da técnica.

À medida que o tempo foi passando e a esportivização do taekwondo se organizando, a Federação Mundial – atendendo demandas do Comitê Olímpico Internacional de preservação ao máximo da integridade física do agora atleta – orientou que a arbitragem deferisse pontuação no rosto quando um simples toque com qualquer parte do pé atingisse o protetor de cabeça. Tentava-se com isso diminuir, nas Olimpíadas, os nocautes que ocorreram nas edições anteriores.

Veja o momento final da disputa da medalha de Ouro nas Olimpíadas de 2004, entre Grécia e Coreia, no peso-pesado:

Paralelo ao glamour de se ter o taekwondo nos Jogos Olímpicos, as atenções do mundo das artes marciais, passava a se voltar fortemente para o MMA e os combates entre grandes lutadores de Jiu jitsu, Wrestling e Muai Thay.

Mestres e professores de taekwondo, no entanto, continuavam apostando no crescimento da modalidade apoiado na transformação da arte marcial em esporte. Mas isso não aconteceu.

O taekwondo já esteve presente em quatro Olimpíadas e o retorno em número de alunos matriculados nas academias, pelo menos no Brasil, em vista do que se esperava, foi muito ruim.

Contraditoriamente, o taekwondo está bem mais conhecido hoje do que há 30 anos. Todavia, aos olhos da imprensa e da sociedade, a modalidade não passa de um esporte de pouca eficiência marcial.

Muitos que conhecem, acreditam, por exemplo, que os braços e os punhos não são utilizados.

Portanto, o taekwondo olímpico, apesar de conferir, a quem treina em alto rendimento, técnicas inigualáveis de chutes, precisa aparecer novamente à sociedade como arte marcial eficiente, para estabelecer definitivamente o entendimento de que o taekwondo olímpico desportivo é parte integrante do taekwondo arte marcial.

Marcus Rezende é 6° dan de Taekwondo, comentarista do Taekwondo pelo canal SporTV nas Olimpíadas de 2000 a 2012 e escreve no blog Taekwondo Opinião.

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