Por: Equipe NetFighter | 29 de setembro de 2016

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*por Marcus Rezende

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A opinião de que o taekwondo competitivo atual não exerce o mesmo fascínio de outros tempos não é novidade pra ninguém. Todavia, é preciso que se faça uma análise reflexiva sobre o porquê de tantas mudanças, sobretudo após as Olimpíadas de Sidney, ficando as alterações mais evidentes com a inclusão do sistema eletrônico em 2009. O objetivo era fazer com que o Taekwondo voltasse a ser mais atrativo. Entre diversos fatores que ensejaram modificações ao longo de tão pouco tempo, destaco os erros grosseiros de arbitragem, a quase ausência de chutes na altura do rosto e a predominância do bandal como técnica principal, sobretudo com o aparecimento do placar eletrônico, para cujo acionamento os juízes laterais eram os responsáveis. Antes disso, a marcação era feita em súmulas e os atletas só ficavam sabendo do resultado quando o braço de um deles era erguido pelo árbitro central.

 Na Olimpíada de Sidney, os erros de arbitragem só confirmavam o que já ocorria nas competições internacionais, com parte dos atletas, e mais fortemente àqueles cujos países não possuía um árbitro sequer para fazer pressão.

A consignação dos pontos ficava cem por cento nas mãos dos juízes laterais. Para não afirmar que no corpo arbitral havia gente de má fé, fiquemos com a hipótese de que parte destes juízes eram incompetentes mesmos. Para se ter um exemplo, na semifinal da Olimpíada de Sidney, em 2000, vimos o francês Pascal Gentil (na categoria acima de 80 quilos) ser literalmente prejudicado na luta contra o sul-coreano Kyong Hun Kim (vídeo abaixo), o qual avançou à final contra o australiano Daniel Trenton e ganhou a medalha de Ouro. Nos intervalos de um round para o outro, as imagens em slow motion, na tevê, mostravam o chute do sul-coreano passando ao largo do colete, e o ponto sendo consignado no placar eletrônico. Na cerimônia de premiação o mundo viu o francês desdenhando da medalha de bronze, demonstrando sua insatisfação.

Além dessa questão da arbitragem, o Taekwondo ganhou uma superdependência do rapidíssimo e simples bandal tchagui e suas variáveis. Os atletas adquiriram uma enorme velocidade na aplicação destas técnicas. Entretanto, fundamentos mais tradicionais do taekwondo (chutes laterais e frontais) raramente eram aplicados, pois, mesmo quando deslocavam o adversário, em alguns momentos, eram desconsiderados como válidos pelos juízes. Tais técnicas ficavam restritas ao treinamento marcial dentro das academias.

A ditadura do bandal ficou bem evidente no Mundial de 2005. Na final da categoria até 78 kg, entre o americano Steven Lopez e o iraniano Ali Tajic; todos os pontos foram por meio desta única técnica. Na Olimpíada de 2004, em Atenas, quando fui comentarista do SporTV, houve um locutor que me perguntou se no Taekwondo somente aquele chute era aplicado. Obviamente que durante uma transmissão não encontrei tempo para uma melhor elucidação ao narrador do canal esportivo.

Antes do placar eletrônico, quando o resultado da luta era apresentado ao final de cada round, os atletas não administravam o resultado; não queriam ficar nas mãos dos juízes. A variedade técnica e a contundência dos movimentos faziam do taekwondo competitivo algo muito mais dinâmico.

Depois chegaram os placares eletrônicos propiciando a verificação dos pontos em tempo real, consignado por meio dos juízes laterais, o que fez com que os atletas procurassem ao máximo a objetividade do ponto. Daí a opção pelo bandal. Mesmo assim, algumas escolas, como a coreana, nunca abriram mão de utilizarem técnicas mais apuradas, tais como o nerio (técnica na qual se ergue a perna e se aplica o chute de cima para baixo) e o mondolio chagui (o famoso rodado).

Eis então que em 2009 surge o colete eletrônico para retirar da arbitragem a responsabilidade de consignar os pontos aplicados no colete eletrônico. Os juízes laterais passaram somente a decidir sobre os pontos na cabeça. Além disso, deram aos técnicos a possibilidade de questionar estas ações sob responsabilidade destes juízes laterais, através do vídeo replay.

Parecia então que os problemas estariam resolvidos. Ledo engano, a tecnologia não acompanhava a velocidade da inteligência de treinadores. Rapidamente, a cada competição, uma técnica nova surgia para transformar o contato do pé (calçado com a meia conectora) com o colete eletrônico em pontos.

Desde que passou a vigorar a nova sistemática eletrônica, a WTF vem realizando diversas modificações. Uma delas foi a diminuição na calibragem dos coletes, para que as lutas ganhassem dinamismo. Queriam a emoção dos resultados elásticos. Porém, o tiro saiu pela culatra, pois a ditadura do bandal transformou-se na da perna erguida, a qual se mantinha suspensa, próxima ao colete, para, mais rapidamente, facilitar o toque.

Com uma calibragem baixíssima, os treinadores passaram a criar movimentos que nada tinham a ver com a marcialidade do taekwondo. Surgiram os verdadeiros campeões dessas técnicas. Alguns atletas passaram a desenvolver habilidades de toques rápidos e leves no colete, cuja aplicabilidade em uma defesa pessoal não tem como ser vista como eficaz.

E assim seguiu até o final de 2015, quando resolveram que a calibragem do colete iria aumentar. Isso acabou se constituindo em uma armadilha a alguns favoritos para esta Olimpíada. Craques como os iranianos Farzan Zadeh, Mahdi Khodobakshi ficaram pelo caminho. Eles tentavam pontuar com movimentos rápidos com a perna da frente e não obtinham êxito.

Mesmo considerando que modificar as regras do jogo em cima da hora não é correto, a mudança foi boa para os que gostam de lutar o taekwondo de verdade. A tentativa de acertar os parâmetros do colete eletrônico, em minha opinião, nesta Olimpíada, sepultou de vez os chutes esdrúxulos com a perna da frente, e voltou a privilegiar os chutes mais potentes.

Mesmo assim, na Arena Carioca 3, continuamos a ver o jogo das pernas erguidas. Isso porque alguns atletas ainda não descontruíram totalmente esta forma de lutar. Porém, quem o fez acabou tendo melhor sorte nestes Jogos Olímpicos.

Melhor ainda foi o fato de ver as escoras em yop e miro tchagui, técnicas não consideradas como válidas, antes do colete eletrônico, mantendo-se no jogo, dando um ar mais marcial à competição.

Por outro lado, a WTF ainda tem o desafio de acertar a calibragem dos coletes. Isso porque, coisas estranhas ocorreram e não foram compreendidas. Pudemos testemunhar muitos chutes potentes não alcançando à calibragem estipulada.

Além disso, é preciso fazer adequações ao capacete eletrônico. Vimos discrepâncias que precisam ser acertadas. De qualquer maneira, diante do exposto, uma coisa é certa: o caminho do sistema eletrônico não tem mais volta. É preciso, no entanto, que se chegue (por meio de testes antecipados) a um caminho definitivo para as próximas competições.

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