Por: Equipe NetFighter | 14 de setembro de 2016

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Love Wins – Love You @robmsully. Thank you for all messages guys ❤️❤️❤️

Um vídeo publicado por Jeff “The Tank”Ludwig (@jeffludwig) em

Jefferson Tanque fala sobre se assumir gay no meio da luta, tido como machista

Jefferson Tanque na época de lutador e com o agora marido, Rob Sullivan (Fotos: Dave Mandel/Sherdog e Facebook)
Jefferson Tanque na época de lutador e com o agora marido, Rob Sullivan (Fotos: Dave Mandel/Sherdog e Facebook)

Jefferson “Tanque” Silva tem grande história na luta. No kickboxing, enfrentou as lendas Ernesto Hoost e Michael Mcdonald no K-1. Perdeu para os dois por nocaute, mas foi campeão do K-1 GP Brazil, vencendo três adversários na mesma noite: Lucio Aurélio, Vitor Miranda e Maiorino Miranda. No wrestling, venceu o renomado Antoine Jaoude e foi campeão de torneio nos EUA. No MMA, fez cartel de três vitórias e duas derrotas, tendo lutado o violento IVC contra feras como Evangelista Cyborg. Tanque sempre foi respeitado pelos colegas, e neste mês tomou uma atitude que pode aumentar ainda mais a admiração por ele: sem medo do preconceito do meio da luta, tido como machista, assumiu-se homossexual, e postou um vídeo de seu casamento (inserido acima) com o americano Rob Sullivan em Nova York, onde mora e ministra aulas.

“Nunca assumi, mas não me importava se alguém soubesse, nunca levantei bandeira, mas se alguém me perguntasse sobre alguma coisa, eu falava sem fazer rodeio. E ao postar o meu vídeo, eu só queria compartilhar minha felicidade, nada mais. Sabia que poderia receber críticas, mas eu já estava muito além disso”, disse Jefferson, que pretende voltar a lutar, e pede que as pessoas abram suas mentes, especialmente no círculo do luta.

“Qual é o problema com o cara ser gay? O que vai mudar na sua vida se alguém que você conhece é gay? Nada. Como uma menina treina com um homem? Vejo várias garotas treinando e elas são duras, querem que peguem pesado, pois não tem diferença dentro do tatame. Nunca ouvi nenhum comentário de alguém tentar pegar nos peitos ou tocar alguma garota diferente. Vai dizer que o cara não tem libido também? Ele tem, mas ele respeita e assim é o cara que é gay e treina arte marcial. Ele te respeita também, até porque você pode estar rolando por anos com alguém que é gay e ele nunca se aproveitou de você”, defende o professor de 38 anos.

Confira abaixo a entrevista completa.

Quando se mudou para Nova York?

Mudei em dezembro de 2013, muito frio aqui, ainda mais depois de sete anos morando no Rio, onde treinei na Brazilian Top Team a convite do Bebeo Duarte. Vitor Belfort e Guerrinha da BTT me incentivaram a treinar na BTT. Depois que a equipe acabou, fiquei porque sempre sonhei em treinar lá. Depois disso, fiquei mais quatro anos na BTT, mas sem lutar, só dando aulas de personal de luta, começando com uma amiga do Murilo Bustamante, a estilista carioca Marcella Virzi. Eu e Chico Salgado, também da BTT, começamos com isso, e depois me mudei para os EUA.

Como é sua vida aí hoje?

Chegando a NY comecei dando aulas de Muay Thai na academia do Fabio Clemente, que na época estava saindo da Alliance, criando  a própria equipe. Depois de 8 anos sem lutar, vencer um torneio de Wrestling na América me deixou bem animado, me senti bem e motivado pra voltar, então continuei treinando mas logo torci meu joelho, que me deixou fora dos treino novamente. Agora so estou treinando Crossfit e pensado em competir em 2018 na categoria master quando completo 40 anos. Proximo ano estou planejando ir pra Tailândia, quero ficar la de 3 a 6 meses treinando pois quero lutar Muay Thai de novo. E lutar na Tailândia é outro sonho que não realizei.

O vídeo que postou nessa semana, do seu casamento, causou muitas reações. Recebeu mais mensagens de apoio ou críticas? 

Meus amigos mais próximos e minha irmã sabiam desde o começo, mas a maioria não sabia. Meu pai, minha mãe e meu irmão também não sabiam. Eu fiquei até surpreso e tinha me preparado pra receber as porradas, avisei meus pais, que foram incríveis, para deixá-los preparados para no caso de algum amigo ou parente ligar. Mas, de verdade, só recebi mensagens de felicitações, muita mensagem de surpresa, mas recebendo suporte e o carinho de amigos, alunos e meus mestres falando que estavam do meu lado, que minha sexualidade não me definia.

Talvez as pessoas que eu conheço e não aceitam ou não entendem não se pronunciaram, nesse caso foi bom, ninguém é obrigado a gostar, aceitar ou entender, você deve é respeitar, isso vale para qualquer um, quando se diz respeito à sexualidade, cor, religião ou partido político.

Como foi a reação do meio da luta?

Ainda não ouvi nada, mas alguns lutadores me mandaram mensagem de felicitações, algumas mensagens dizendo: “É mais fácil pisar no ringue e trocar porrada do que fazer o que você fez”. “Você é muito mais macho que muito lutador aí”. “Chama de viado agora! Quero ver ser homofóbico com você (risos)”. “Para mim você continua sendo o casca-grossa que sempre foi”. “Já era seu fã quando você lutou com o Ernesto Hoost, agora meu respeito cresceu ainda mais”. Várias mensagens positivas.

Um outro falou que já sabia desde a época que a gente treinava junto, isso em 2005. Aí eu retruquei: “Bom, seu radar devia estar quebrado, porque naquela época nem eu sabia (risos)” Mas acho que a ficha vai cair mesmo depois dessa entrevista. Poucas pessoas ou lutadores viram meu vídeo.

Quando “se descobriu” homossexual? 

Em 2006, estava com 28 anos. Fui casado por oito anos, quando separei da minha esposa fiquei perdido. Mundo da luta é uma bolha, você vive aquilo e não sabe ou não se interessa pelo que está do lado de fora. Eu vivia minha vida para os meus treinos, minha luta, minha esposa e meus alunos. Nunca tive nenhum pensamento homossexual antes ou curiosidade, era realmente muito focado no que eu fazia. Mas depois da separação alguma coisa mudou, eu sozinho comecei a conhecer o mundo lá fora, na mesma época começou o boom da internet e isso ajudou muito a me esconder. A internet me ajudou a ser anônimo. Assim eu fiz o que tinha vontade de fazer sem ninguém saber.

Mas essa “paranoia” não durou muito. Nunca assumi, mas não me importava se alguém soubesse, nunca levantei bandeira, mas se alguém me perguntasse sobre alguma coisa, eu falava sem fazer rodeio. E ao postar o meu vídeo, eu só queria compartilhar minha felicidade, nada mais. Sabia que poderia receber críticas, mas eu já estava muito além.

Então você já era lutador? Por que não assumiu sua opção na época, para talvez encorajar outros lutadores?

Quando comecei a me relacionar com homem eu ainda treinava e lutava, mas estava quase parando. E isso também não funcionava muito na minha cabeça, pois naquela época sentia atração por mulher também, e foi muito difícil entender o que estava acontecendo. Na época isso atrapalhou muito meu desempenho como lutador. Junto com as lesões, o medo de não ser aceito, ou não ter lugar pra treinar, ou não ser chamado para lutar me assombrava muito. Eu atribuo a isso minha derrota na última luta no EliteXC em 2007. Nessa luta, fraturei o orbital com uma cotovelada por dentro da guarda no início do primeiro round, mas ainda lutei o primeiro round todo. No intervalo o Zé Mário Sperry, que estava no meu corner, dizia que eu tinha condições de voltar, mas o médico não permitiu, dizendo que eu tinha fraturado e que eu deveria parar. Meus amigos que viram a luta disseram que não o Tank que eles conheciam não era aquele que tinha entrado no ringue. E eles estavam certos, não era o cara que costumava ser. Estar vivendo naquela situação me desequilibrou muito psicológica e sentimentalmente.

Como conheceu seu companheiro? Ele treina também?

Eu o conheci em 2013, no Rio, depois de umas férias de mais de dois meses pela América do Sul. A última parada foi o Rio. Ele começou a treinar comigo, começou a se graduar e no ano passado foi para a Tailândia, onde treinou Muay Thai por três meses. Agora ele vai treinar para pegar a preta de Muay Thai.

Acha que é possível ser tão transparente nesse meio de luta? 

O que você quer dizer com transparente? Se eu posso assumir ser gay e continuar lutando ou treinando? Eu acho que sim, minha opção sexual não muda nada, não muda quem sou. Não vou ser menos técnico, menos agressivo, menos explosivo ou forte porque sou gay. A questão é: as pessoas conseguem ser transparentes com alguém que assuma sua opção sexual? Qual é o problema com o cara ser gay? O que vai mudar na sua vida se alguém que você conhece é gay? Nada. Eu falo por experiência, luta é coisa séria e ninguém é doido de tirar uma casquinha ou aproveitar de uma situação porque sabe que vai se dar mal. Se o cara escolheu treinar é porque ele gosta ou ama aquela arte marcial e vai viver de acordo com a disciplina e os preceitos da arte.

Como uma menina treina com um homem? Vejo várias garotas treinando e elas são duras, querem que peguem pesado, pois não tem diferença dentro do tatame. Nunca ouvi nenhum comentário de alguém tentar pegar nos peitos ou tocar alguma garota diferente. Vai dizer que o cara não tem libido também? Ele tem, mas ele respeita e assim é o cara que é gay e treina arte marcial. Ele te respeita também, até porque você pode estar rolando por anos com alguém que é gay e ele nunca se aproveitou de você.

Conheceu outros lutadores ou treinadores do meio que “esconderam” sua preferência sexual por medo do preconceito? 

Sim, conheço alguns. E todos, como eu, não são estereotipados, se eu não falar, você nunca vai saber. Mas não vou revelar, claro. E temos várias histórias e até boatos sobre gays nas artes marciais. Anos atrás vi alguns posts falando sobre Mark Kerr, mas nunca tive certeza se ele era gay de verdade ou boato, nunca tive nenhuma prova disso. Alex Reid, lutador inglês de MMA que já lutou com Murilo Ninja, assumiu ter tido relações sexuais com homem, mas não se diz gay. O lutador Dakota Cochrane foi ator pornô gay e lutou no UFC. Pat Patterson do WWE assumiu ser gay depois dos 50 anos. Tem boatos de um lutador famoso do K-1 namorar um jogador de futebol, mas também não sabemos se é verdade. Liz Carmouche, lutadora do UFC, assumiu ser gay, a Amanda Nunes, campeã do UFC, é gay, tem namorada, mas com mulher é bem diferente. É muito mais fácil para a sociedade aceitar duas mulheres se relacionando.

As vidas desses atletas não mudam nada se eles se assumirem gays. Talvez você até foque mais sabendo que tem o apoio de seus amigos ou treinador, como tive dos meus mestres. Especialmente quando você tem uma história na luta, é um bom atleta, é campeão ou tem uma conduta exemplar dentro e fora dos ringues e do tatame, ser gay é só um detalhe.

Você acha que aí em NY, ou nos EUA em geral, as pessoas tem a mente mais aberta? Acha que será mais aceito aí do que seria aqui?

América e Europa sempre estiveram na frente, mas a mentalidade no Brasil mudou muito e já se pode falar sobre. Acho que aqui é muito mais fácil viver sem o preconceito. Eu acho que a questão maior em ser gay nem é se você se relaciona com outro cara, o que todo mudo tem medo ou faz piada é do caricato, o cara que é afeminado ou a garota que é masculina. Esses sofrem preconceito e bullyng, eu não. Eu não ando na rua levantando uma bandeira do arco-íris, as pessoas sabem que sou porque falo, senão ninguém saberia.

Acha que pode encorajar outros a tomarem a mesma atitude que você?

Não acho que vai encorajar ninguém a sair do armário, mas acho que vai abrir a cabeça de muita gente.

Pensa em voltar a lutar?

No próximo ano vou pra Tailândia e quero fazer um camping de Muay Thai por três meses, aí realizar meu sonho de lutar lá. Eu quero lutar ainda, mas não sei se quero fazer carreira, quero apenas competir, no wrestling e  no Muay Thai.

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