Por: Equipe NetFighter | 2 de junho de 2016

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COLUNA TAEKWONDO, por Marcus Rezende

Foto: Marcus Rezende
(Foto: Marcus Rezende)

Evolução das técnicas e regras no taekwondo competitivo desde os anos de 1970

O primeiro Campeonato Mundial de Taekwondo ocorre em 1973 na Coreia do Sul. Pela primeira vez atletas do mundo inteiro se enfrentam e mostram a evolução técnica da arte marcial em forma de esporte por meio de regras específicas.

Podemos reparar por meio deste vídeo do Campeonato Australiano de 1977 que a evolução técnica  ainda pouco progride. Os atletas buscam, na maior parte do tempo, acertar a cabeça do adversário haja vista inexistir equipamento de proteção.

No início dos anos de 1980 os atletas de taekwondo se apresentam com técnicas mais apuradas. Utilizam bastante a perna da frente para atingir a cabeça do oponente. Outras técnicas eram as escoras, seguidas de giros e o surpreendente recurso de elevação frontal da perna até o limite máximo, fazendo-a descer de forma impactante à região frontal do rosto do oponente. Veja no ínicio desta luta no Campeonato Mundial de 1982, em Guaiaquil, no Equador.

No início da década de 1980, a seleção coreana de taekwondo passa a viajar o mundo para realizar amistosos com seleções de outros países. Os coreanos apresentam um estilo de luta completamente diferente do que os demais atletas de outros países desenvolviam. Sem perder a contundência das técnicas de chutes altos com velocidade, apresentam movimentos novos de contra-ataques aos chutes costumeiramente aplicados.

Os coreanos passam a utilizar o contra-ataque como arma principal, sem abrir mão das facilidades que se punham aos ataques. Aproveitam-se dos movimentos mais abertos dos oponentes para desferir golpes precisos no colete e, dessa forma, vencer lutas por meio da soma de pontos. Sem deixar, entretanto, de buscar o nocaute nas oportunidades que surgiam. Os coreanos passam a apresentar movimentos de lateralidade, além de movimentos com os braços que passam a confundir  os adversários. O mundo passa a copiar a forma de lutar dos coreanos

Amistoso entre Coreia e Italia em 1983

Penso que a partir do Mundial de 1985 dá-se uma drástica mudança no modo de lutar dos atletas de taekwondo de todo o mundo. Até então, buscavam a transição entre o modo antigo de lutar e o novo apresentado pelos coreanos.

A forma sequenciada de ataques dos adversários define a forma de lutar. Com um incrível domínio das saídas laterais, os coreanos ocupam todo o espaço da área de luta e surpreendem os oponentes com contra-ataques precisos.

Neste mundial de 1985, das oito categorias, os inventores do taekwondo venceram sete. A única derrota foi para o holandês Henk Meijer.

Em 1988 o taekwondo se apresenta ao mundo  demonstrando o futuro esporte Olímpico. Foi nos Jogos de Seul, na Coreia. Os coreanos ainda são hegemônicos. A lateralidade e o jogo de pernas (steps) ainda é um domínio deles. Porém, os adversários já se mostram familiarizados com aquele estilo de luta. A velocidade dos chutes, buscando atingir o colete, aumenta. Mas as técnicas de ataque na cabeça continuam visando o nocaute. Isso porque o chute no rosto serve apenas como critério de desempate.

No vídeo, parte das lutas do primeiro tetracampeão mundial, Jung kook Hyun, nesta demonstração em Seul

Os anos de 1990 iniciam mostrando que o taekwondo mundial se universalizara.  Talvez a década na qual o taekwondo tenha sido o mais vistoso. As lutas eram muito objetivas. Os chutes eram desferidos com muita velocidade e potência. Ouvia-se o impacto das pancadas. As lesões nos pés eram inevitáveis.

Trecho do Mundial de 1991, em Atenas

A partir da segunda metade dos anos de 1990, fica patente um estilo de luta de aplicação de chutes rápidos e contínuos. Em uma única ação de ataque ou contra-ataque, uma série de chutes são disparados no intuito de fazer mais de um ponto. Esse modo de lutar foi fortemente marcado nos anos de 1997 e 1999.

Mundial de 1997 em Hong Kong

Nesta final de campeonato coreano de 2000 pode-se verificar o nível de velocidade e de força aplicados nos chutes. Porém, os atletas já se mostram mais objetivos. Não desferem a esmo os chutes duplos e triplos. Só o fazem em momentos específicos. Os juízes laterais são orientados a somente conceder o ponto se o chute for forte e visível. Dessa forma, os resultados eram apertados. Há de se destacar um sem número de julgamentos errados dos árbitros em marcações inexistentes e outros corretos não marcados. Assim, os atletas passam a ser mais econômicos nos movimentos, buscando a aplicação da técnica na certeza de não errá-la.

Em 2002 os chutes no rosto passam a valer dois pontos. Mesmo assim, as lutas, apesar de extremamente técnicas, já não são tão vistosas. Veja parte da final do Mundial de 2003 na categoria até 58 Kg.

Isso se confirma no Mundial de 2005, quando os placares continuam apertados e o critério de concessão de pontos por parte dos juízes laterais se mantém rigorosa.

Nesta luta do americano multicampeão Steven Lopez contra o atleta da Coreia, percebe-se a falta de ousadia em movimentos diferenciados.  O modo de lutar não se altera. Os atletas buscam aprimorar a precisão dos chutes e a velocidade.

Na final do Mundial de 2007, na categoria até 54 Kg, entre Coreia e Tailândia, o único ponto ocorrido na luta deu-se no início do combate, quando o coreano ousou antecipar o chute com a perna da frente. Veja aqui

No Mundial de 2009 dá-se início à utilização do colete eletrônico. Uma nova era se inicia para o taekwondo competitivo, pois saem de cena os juízes laterias. Eles não mais acionariam seus equipamentos para julgar a validade ou não de pontos no colete, mas continuariam validando os desferidos no rosto.

O colete eletrônico é regulado por calibragem que varia de acordo com a categoria do atleta, o que, no primeiro momento de adaptação, acabou gerando dificuldade ao lutador à consignação dos pontos.

Luta final da categoria até 54 Kg

Os atletas deixam de se valer dos chutes fortes, desferidos de trás, e passam a usar a perna da frente.   Passa a valer o atleta de maior envergadura. Nas Olimpíadas de 2012, em Londres, a Federação Mundial de Taekwondo adota um critério bastante polêmico à validação dos pontos em chutes na cabeça: o simples toque de raspão é adotado como válido para três ou quatro pontos, o que descaracteriza completamente a marcialidade da luta. Na final Olímpica entre Joel Bonilla (Espanha) x Dae Hon Lee (Coreia), pode-se constatar essa anomalia.

A partir de então, o que passa a prevalecer como técnica de competição não mais é a potência dos chutes, tampouco a contundência dos ataques no rosto, mas sim o encaixe justo entre a meia que calça o pé do atleta e os sensores do colete eletrônico.

Um novo aprendizado passa a valer. Os grandes atletas passam a ter de se adaptar à tecnologia e a reapreender esse novo taekwondo competitivo. Para tanto não podem abrir mão de possuir o equipamento eletrônico.  A calibragem baixa dos coletes acaba por formatar novas técnicas para cujo êxito nas competições dispensa a violência e potência dos chutes.

Quanto às técnicas de ataque na altura da cabeça, passa a vigorar um novo critério para a validação de três ou quatro pontos, bastando para tanto que qualquer parte do pé encoste (mesmo que de leve) em qualquer parte do rosto, cabeça ou nuca do oponente.

Esse é um detalhe que passa a gerar enormes dúvidas aos juízes laterias. A todo momento as lutas são paralisadas e questionados pelos técnicos, em razão da dúvida. A luta, de duração de oito minutos, passa a ter uma média não menor do que 10 minutos.

Neste vídeo, categoria até 63 kg entre atletas do México e Colômbia, no Mundial de 2013, em Puebla, no México, pode-se verificar que o combate até começa interessante, mas vai ficando enfadonho.

No último Mundial, ocorrido na Rússia, no ano passado, fica bem evidente o quanto o taekwondo competitivo atual se tornou desinteressante. Nesta luta entre os mesmos finalistas das Olimpíadas de 2012, agora em categoria mais pesada, Joel Bonilla e Dae Hon Lee, nada acontece…. Dois atletas de altíssimo nível que jogam conforme as regras vigentes, e quem perde é o público e o próprio esporte.

Marcus Rezende é 6° dan de Taekwondo, comentarista do Taekwondo pelo canal SporTV nas Olimpíadas de 2000 a 2012 e escreve no blog Taekwondo Opinião.

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