Por: Equipe NetFighter | 12 de julho de 2016

0.

COLUNA TAE KWON DO, por Marcus Rezende

Foto: Marcus Rezende
Foto: Marcus Rezende

Associações descartáveis, federações que viram equipes e CBTKD que faz o jogo anacrônico 

Copiar o mesmo padrão desportivo e administrativo de outros esportes no país, com 27 federações e uma confederação, foi o grande erro dos que organizaram o taekwondo no Brasil a partir de 1982. Obviamente que isso não foi por acaso. Manter essa tendência (já consolidada em outros esportes) tinha como objetivo perpetuar no poder os mesmos dirigentes.

Para um maior desenvolvimento da modalidade, melhor teria sido copiar o modelo exitoso de outros países. Em vez de uma confederação, desenvolver-se por meio de uma federação nacional para cujo comando o conjunto de presidentes de ilimitadas agremiações constituídas elegeria.

Para entender a desgraça do taekwondo no atual sistema vigente no país, vamos discorrer sobre como ele se dá e como atravanca o lado desportivo da arte marcial em beneficio de dirigentes que se perpetuam no poder em cada um dos estados.

Tudo começou em 1982 quando surgiu a primeira federação de taekwondo: a do Rio de Janeiro. É importante frisar que para uma federação existir legalmente são necessárias, no mínimo, que três associações – cujos presidentes em assembleia elegem o presidente estadual – a precedam.

A primeira federação do Brasil formatou seu estatuto social aos moldes de federações de outros esportes, adaptando-o à realidade do taekwondo. Antes, porém, foram empossados como presidentes das associações alguns faixas pretas, os quais elegeriam cartorialmente o presidente da federação.

Apesar de serem os presidentes das associações os responsáveis por escolher os presidentes das federações, o  mando de fato pertencia ao mandatário estadual eleito por esses presidentes de associações, os quais, subjugados ao poder do mestre e à obediência marcial devida, não tinham como se insurgir a algumas anomalias administrativas. Dessa forma, por meio dos votos destes alunos-presidentes de associações cartoriais, o criador da federação oficializava a receita para quantas reeleições quisesse obter.

O modelo do Rio de Janeiro foi levado a outros estados, onde o taekwondo também era comandado exclusivamente por outros mestres. Dessa forma, depois de se conseguir constituir algumas  federações, criaram a primeira Associação Nacional de Taekwondo e, pouco tempo depois, a Confederação Brasileira cujo presidente eleito foi o sul-coreano Yong Min Kim, um dos mestres de taekwondo do Rio de Janeiro.

Daí por diante, tinha-se um presidente de uma entidade nacional escolhido em um grande acordo entre os primeiros presidentes estaduais, os quais eleitos por associações cartoriais, em cada estado, simplesmente se reelegeriam a cada quatro anos.

Com essa subjugação, os presidentes estaduais passaram a dar as cartas da política desportiva a ser seguida no Brasil. Uma delas, e que vigora até hoje, é o modelo de competições nacionais por meio de seleções estaduais.

As federações realizam seus campeonatos estaduais e os campeões de cada categoria formam a seleção a representar o estado em uma competição nacional. Ou seja, as associações e os clubes não participam da festa organizada pela CBTKD. Todo o glamour do Campeonato Brasileiro de Taekwondo passa a servir para inflar o ego dos presidentes estaduais.

Anacronicamente as equipes passam a competir somente no âmbito do respectivo estado.

Em 2000, o Clube de Regatas Vasco da Gama, implementou um projeto Olímpico com diversos esportes, contemplando também o taekwondo, o único que, naquela época, não podia competir em nível nacional. Segundo o mestre Ricardo Andrade, que supervisionava a modalidade dentro do Vasco, difícil foi fazer a diretoria do clube entender que o taekwondo do Vasco estava restrito tão-somente às competições estaduais, e que o Campeonato Brasileiro de Taekwondo era disputado por seleções estaduais.

Para um melhor entendimento, há um detalhe importante a ressaltar,  As federações estaduais (com poucas associações com poder de voto), nunca impediram que as academias e outras agremiações participassem dos seus campeonatos. Isso porque, sem essa participação, não haveria competidores suficientes. Estas equipes se tornam vinculadas, mas não são estimuladas a se filiar. Quando se interessam por promover a filiação junto à entidade, acabam desistindo em razão das enormes dificuldades impostas pelo estatuto social da federação.

Dessa forma, os 27 presidentes das entidades estaduais de taekwondo passaram a reinar absolutos nos respectivos estados.

A partir do advento da Lei Agnelo Piva, em 2001, com repasses de verbas públicas às confederações nacionais, por meio do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), a relação dos 27 presidentes com o presidente da CBTKD se tornou ainda mais estreita. As decisões em prol do taekwondo passam a ser tomadas por poucas pessoas, em benefício direto dos mandatários estaduais e em detrimento dos praticantes registrados em academias, associações e clubes, os quais não tinham (e não têm) voto ou voz nas decisões.

Não é preciso muita inteligência para perceber que o modelo perpetrado desde sempre é totalmente anacrônico. Melhor seria que a CBTKD aceitasse a vinculação direta de todas as agremiações de taekwondo, sem a intermediação das federações.

MAS E O MEDO DE PERDER O VOTO E O PODER?

As competições nacionais teriam de ser, todas, disputadas com a participação direta das agremiações e não por seleções estaduais cujo técnico é sempre alguém que o dirigente escolhe, não pela competência, mas, no mais das vezes, por afinidade particular. Há federações que são tão tradicionalistas que acreditam não existir vida taekwondista se não for por meio delas.

Para demonstrar o quão sem nexo é o formato competitivo do taekwondo brasileiro, costumo fazer uma analogia com o futebol. Isso descortina de cara essa anomalia e anacronismo existente dentro da CBTKD.

Imagine a CBF, a partir de agora, eliminando o campeonato brasileiro de futebol, com os tradicionais times, para adotar um sistema de seleções estaduais. E dessa forma, mandar as federações escolherem os melhores jogadores dos estaduais para formar uma seleção. A federação, naquele momento deixaria de ser uma entidade administrativa e passaria a ser uma equipe com treinador, uniforme etc. E os clubes, por sua vez, participariam de outros tipos de competições.

Dá pra imaginar isso?

Atualmente existem diversos treinadores com equipes próprias realizando exitosos trabalhos com atletas de ponta e que se deparam com a tal da federação estadual metendo o dedo na programação de suas equipes.

Há dirigentes que (em vez de facilitar) simplesmente não aceitam o fato de alguns atletas optarem por não lutar nas etapas estaduais. Utilizam da velha chantagem de que não poderão participar dos eventos nacionais se não se inscreverem nos estaduais.

E assim, nessa toada, os responsáveis pelas equipes de atletas de alto rendimento ficam presos às ameaças de alguns dirigentes. Não são poucos os treinadores que deixaram de ser formadores de atletas e passaram a trabalhar tão somente com a arte marcial. Muitos descobriram que fizeram uma ótima opção. Deixaram de ser perturbados por dirigentes inescrupulosos e descobriram que os alunos não abandonam a academia por falta de participação nesse tipo de competição.

Portanto, enquanto a CBTKD e as federações estaduais não entenderem que o elo mais forte dessa cadeia está nas agremiações e nos respectivos fomentadores da arte marcial, continuaremos a ter um taekwondo fraco e dependente de talentos esporádicos que surgem de vez em quando.

Enquanto as Federações não entenderem que precisam dar total liberdade de ação às academias, clubes e associações – e que não devem se transformar em equipes para disputar competição nacional por seleção estadual – mais e mais fomentadores do taekwondo se afastarão deste sistema exclusivista do taekwondo olímpico no Brasil.

Marcus Rezende é 6° dan de Taekwondo, comentarista do Taekwondo pelo canal SporTV nas Olimpíadas de 2000 a 2012 e escreve no blog Taekwondo Opinião

Deixe seu comentário!