Por: Equipe NetFighter | 11 de julho de 2017

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Kauê Macedo

Jornalista em formação, Kauê Macedo escreve análises de MMA, boxe e kickboxing. Atualmente, é colaborador do NetFighter, onde escreve análises sobre esportes de combate. É o fundador e idealizador do site Pitaco Esportivo.

Justin Gaethje estreou com vitória por nocaute. Foto: Getty Images – Zuffa LLC – UFC

Por muitos anos, Justin Gaethje foi o melhor peso leve do WSOF, disputando de igual para igual com os fantásticos pesos leves do Bellator o posto de melhor do mundo fora do UFC. Na terceira maior organização de MMA do mundo na época, Gaethje fez cinco defesas de cinturão, o recorde do evento ao lado do brasileiro Marlon Moraes, ex-campeão peso galo, e atropelou nomes decentes do circuito regional americano como Melvin Guillard, Brian Foster, Luiz Firmino e Nick Newell.

Michael Johnson, já um veterano no UFC, vinha numa fase delicada de três derrotas nas últimas quatro lutas, que incluíam uma boa vitória em cima de Dustin Poirier, mas também uma surra memorável contra o melhor lutador russo do planeta, Khabib Nurmagomedov, talvez o melhor peso leve do mundo.

Michael Johnson x Justin Gaethje foi um casamento muito interessante. Primeiro, o ex-campeão do World Series chegou estreando num main-event de um evento importante da UFC International Fight Week, e segundo, quando analisamos o combate de um aspecto puramente tático, o estilo de Michael Johnson era um bom anti jogo para o de Gaethje, levando em conta que ele basearia seu jogo em se movimentar circularmente e focaria seu trabalho nos golpes longos e retos da média para a longa distância.

Surpreendentemente, Gaethje venceu uma das melhores lutas do ano e, contrariando o ordem técnica da trocação, superou seu adversário que abriu mão de seu plano tático e resolveu trocar socos na curta distância com um dos lutadores mais violentos do mundo.

Maior lutador da história do WSOF ao lado de Marlon Moraes e David Branch, Justin Gaethje é o clássico brawler comumente visto nas lutas de boxe de cem anos atrás, mas, por algum motivo, seu estilo funciona nos dias de hoje, onde o nível técnico é mais alto do que nunca.

Michael Johnson é tecnicamente superior a Justin Gaethje na trocação, ele tem um boxe alinhado, boa movimentação e bom controle de distância, fato que comprovou diversas vezes, inclusive em sua última vitória, quando mandou o duríssimo Dustin Poirier para outra dimensão em pouco mais de um minuto e meio de luta.

Para que possa ser bem sucedido, o brawler costuma precisar de três coisas que não se obtém treinando: coração, queixo e poder de nocaute. Gaethje provavelmente tem dois corações em seu peito, um queixo de adamantium e um poder de nocaute consideravelmente alto. É preciso ter culhão para fazer esse tipo de luta, e, muitas vezes, seus adversários caem na pilha e deixam de disputar uma luta de MMA para disputar um duelo de cascas-grossas, e quando acontecem essas disputas, o brawler geralmente leva vantagem.

Michael Johnson entrou como favorito e começou lutando da maneira correta, fazendo a manutenção de distância, buscando fazer o trabalho de pernas para não ficar com as costas para a grade, aplicando contragolpes e fazendo a clássica combinação dos out-boxers de entrar, bater e sair. Johnson começou se movimentando bastante, variando saídas para os lados, principalmente para a sua esquerda, e trabalhando golpes longos e retos aplicados da média distância. 

Gaethje ia colocando pressão, andando para frente e sempre tentando encurtar a distância. Quando MJ atacava da média para a curta distância, Gaethje apresentava duas opções como resposta: erguer completamente a guarda ou contragolpear.

A opção de erguer completamente a guarda é muito menos eficiente no MMA do que boxe, já que as lutas no UFC são minúsculas. Ao levantar completamente sua guarda no boxe, o lutador consegue proteger uma área muito grande da sua cabeça, enquanto no MMA a área é consideravelmente limitada e o deixa exposto a certos golpes, por exemplo, quando o lutador protege a frente do rosto, como Gaethje fez na luta inteira, ele se protege de golpes longos e retos, mas fica aberto a overhands, uppercuts e, principalmente, cruzados. Martin Kampmann era um exemplo clássico de lutador que fazia essa guarda, mas mesmo assim, vez ou outra, era massacrado por golpes nas áreas desprotegidas da cabeça, como aconteceu na luta contra o striker ex-campeão meio-médio do WEC e interino do UFC Carlos Condit.

1) A luta está acontecendo na média distância (A), com Michael Johnson se movimentando para a sua esquerda (B) e Gaethje pressionando (C). 

2) Johnson, da média para a curta distância (A), entra com um direto de esquerda (B) em Gaethje, que imediatamente levanta completamente sua guarda (C).

3) Após conectar o golpe, Johnson recua imediatamente (A) para a média distância (B), enquanto Gaethje já voltava a pressionar (C).

Vale lembrar que Justin Gaethje não é um contragolpeador técnico como foi Lyoto Machida ou como é Valentina Shevchenko, ele somente vê uma brecha e responde com golpes duríssimos, sem se preocupar muito em ser atingido.

1) Com a luta da média para a curta distância (A), Johnson começa fintando um jab na altura do plexo do adversário (B).

2) Johnson então entra com um cruzado de esquerda no corpo (A) e Gaethje responde com um cruzado de direita na cabeça (B)…

3) seguido de um cruzado bem aberto de esquerda (C).

4) Johnson entra com outro jab (A) e Gaethje responde com um direto (B), e a pancadaria se repete.

Gaethje ia fazendo seu jogo e nunca parava de pressionar, sempre andando para frente, aplicando golpes duros da média para a curta distância, trabalhando low kicks e sufocando Johnson contra a grade. O veterano do UFC respondeu tudo isso a altura no primeiro round, conseguindo até mesmo atordoar o estreante com um belo cross de direita nos segundos finais, que foi seguido por uma queda e a garantia de um 10-9.

 Michael Johnson começou a entrar no jogo do adversário no início do segundo e ia chegando cada vez mais perto do infight, trocando de forma franca com o Highlight. A superioridade técnica de Johnson o fez sair na frente de novo e ele balançou o oponente novamente, dessa vez com a mão esquerda.
Na cabeça de MJ, provavelmente era questão de tempo até Gaethje cair, mas ele não percebeu (pelo menos até o final da luta) que estava enfrentando um zumbi que nunca parava de persegui-lo e nunca caia. Justin foi pressionando e respondendo aos golpes no seu estilo de luta padrão, enquanto Johnson lutava de forma diferente do de costuma, e foi questão de tempo para acontecer o que falei lá em cima: “seus adversários deixam de disputar uma luta de MMA para disputar um duelo de cascas-grossas, e quando acontecem essas disputas, o brawler geralmente leva vantagem”.
Assim que atordoou o adversário pela primeira vez, Gaethje começou a colocar ainda mais pressão e aplicou combinações brutais de uppercuts, cruzados, overhands, joelhadas e o que mais veio na sua cabeça, e esse ritmo foi demais para Michael Johnson, que foi ao chão ainda consciente, mas completamente destruído pelo novo herói dos fãs de batalhas sangrentas.
Justin Gaethje estreou no UFC com luta principal, nocauteando um top 5, mantendo o cartel invicto e fazendo a melhor luta do ano. Esse sujeito tem algo especial. A expectativa que fica é que ele enfrente Tony Ferguson, Edson Barboza, Nate Diaz, Al Iaquinta, Anthony Pettis ou qualquer outro que queira trocar com ele, nada de Nurmagomedov ou Kevin Lee por enquanto.
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