Por: Equipe NetFighter | 20 de junho de 2017

0.

*por Kauê Macedo

Jornalista em formação, Kauê Macedo escreve análises de MMA, boxe e kickboxing. Atualmente, é colaborador do NetFighter, onde escreve análises sobre esportes de combate. É o fundador e idealizador do site Pitaco Esportivo.

Holly Holm nocauteou Bethe Correia no UFC Fight Night 111. Foto: Getty Images_Zuffa LLC_UFC

Na manhã do último sábado, o UFC foi até o Sudeste Asiático fazer o segundo evento de sua história em Singapura, dessa vez no Singapore Indoor Stadium, na cidade de Kallang, na Região Central do país. O evento foi liderado por Holly Holm e Bethe Correia, que trocaram até o terceiro round, quando a brasileira foi brutalmente nocauteada por um chute fantástico.

Holm vinha de três derrotas consecutivas e precisava urgentemente de uma vitória, a situação de Bethe Correia não era tão grave e a luta contra a ex-campeã poderia ser uma ótima, porém arriscada, oportunidade de chegar ao top 5 da categoria. No fim das contas, era uma luta interessante em vários aspectos diferentes, mas errou feio quem achou que a luta seria intensa.

Analisamos as partes técnicas e táticas mais importantes da luta, explicando como e porque Holly Holm venceu exatamente como prevemos no artigo anterior.

Bethe Correia não cometeu o mesmo erro de Ronda Rousey e dosou muito mais seu nível de agressividade para não ser bombardeada com contragolpes da melhor boxeadora do esporte. A brasileira sempre foi uma brawler, estilo que foca seu jogo em andar para frente, pressionar e lutar da média para a curta distância, controlando o centro do octógono e aplicando uma quantidade alta de golpes, mas, dessa vez, Bethe trocou sua estratégia e não fez praticamente nada do que estava acostumada a fazer, colocando muito menos pressão e esperando mais a adversária tomar a iniciativa, para que assim ela pudesse conectar mais golpes e, ao mesmo tempo, diminuir drasticamente a possibilidade de receber contragolpes. A ideia era boa, mas foi difícil para Bethe aplicá-la, não dá para mudar o estilo de luta de uma atleta em tão pouco tempo.

Apesar de esperar a ex-campeã tomar a iniciativa e entrar em seu raio de ação, Bethe estava completamente perdida no timing dos contragolpes. Holly Holm é uma striker espetacular e sabe lidar perfeitamente com esse tipo de adversária, ela fintava o tempo todo, ameaçando avançar ou golpear, e isso fazia Bethe reagir o tempo todo, ficando sem saber quando o ataca viria. Isso atrapalha muito o lutador a pegar o timing do adversário, principalmente nos primeiros minutos de luta, tempo em que todo atleta faz isso, e a brasileira só conseguiu pegar parcialmente o tempo da adversária no segundo round.

Se você acompanha Holly Holm a bastante tempo, principalmente se assistiu sua carreira no boxe, sabe muito bem que ela não é uma atleta agressiva. Holly pareceu (para o grande público) a lutadora mais devastadora do planeta quando lutou contra a ex-campeã Ronda Rousey, mas isso só aconteceu porque a judoca fez exatamente o que a desafiante queria, Ronda adotou a pior estratégia possível na trocação para enfrentar uma out-fighter como Holly Holm, por isso que vimos uma chuva de golpes precisos e potentes entrando constantemente, fazendo com que Rousey parecesse acabada antes mesmo de entrar o mais belo chute da história do MMA feminino. Mas a realidade é que Holly Holm tem um estilo cujos fundamentos principais são um trabalho de pernas fluido, uma boa velocidade e um sistema defensivo eficiente, ela pode ser definida de forma mais específica como uma out-fighter contragolpeadora, e esse é um estilo que, dependendo do adversário, é muito pouco agressiva.

Durante toda a luta, Holly Holm utilizou bastante os chutes para fazer a manutenção de longinquidade da luta e deixar o combate da média para a longa distância. O principal golpe que ela utiliza para isso (não somente nessa luta) são os chutes laterais aplicados no corpo, como demonstrados a seguir.

1) A luta está na média distância (A), com Bethe tentando sair da grade (B) e Holm cercando e cortando o octógono para mantê-la presa (C).

2) Holm pressiona um pouco mais (A)e avança na distância (B) para entrar com o chute lateral, para isso, ela gira um pouco seu quadril para ficar de forma mais lateral (C) e levanta a perna direita até a altura da cintura (D).

3) Holm, então, muda sua postura e deita seu tronco para a sua esquerda (A) e estica a perna que tinha levantado (B), gerando, dessa forma, muito mais pressão no golpes. O chute só não foi perfeito por causa da distância em que foi realizado (C), porque nela – a distância – não tinha espaço o suficiente para Holm esticar completamente sua perna e aplicar o golpe com todo seu potencial (B).

4) Com o golpe, Bethe é jogada para longe (A) e Holm aproveita para recuar (B), fazendo com que a luta volte para a longa distância (C).

Holm trabalhava muito mais os golpes longos e retos, tentando aplicá-los com o tradicional “entrar, bater e sair”, mas, para não dar brechas para contragolpes quando entrava no raio de ação da brasileira, Holm já encurtava a distância pensando em sair, e isso fazia com que ela desperdiçasse muitos golpes, tanto é que ela conectou 46% dos golpes lançados. Bethe não se preocupava muito com isso, mas ela estava tentando esperar Holm chegar perto para poder atacar, mas o a ex-campeã está num nível técnico completamente diferente da brasileira, e isso fez com que ela acertasse apenas 29% dos golpes lançados.

Por algum motivo, Bethe Correia achou que conseguiria abalar o psicológico de Holly Holm fazendo algumas graças, mas isso pareceu bem inocente da parte dela. Holm é uma veterana dos esportes de combate que já foi dezenove vezes campeã mundial de boxe, duas vezes eleita a melhor lutadora de boxe do ano, e foi campeã do maior evento da história do MMA nocauteando a maior lutadora da história da categoria, não é qualquer coisa que vai abalar essa mulher.

O final da luta veio logo após essas provocações, mas, ao contrário do que muitos estão falando, o nocaute não teve nada haver com isso.

1) A luta estava da média para a longa distância (A), com Bethe Correia avançando lentamente em direção à ex-campeã (B).

2) Holm começa o movimento do chute levantando a perna na altura do corpo da brasileira (A), que pensou que o golpe seria aplicado naquela direção e tentou se proteger (B).

3) Holm então muda a direção do chute, assim como um downward roundhouse kick, e conecta uma canelada mortal na cabeça de Bethe (A), enquanto a brasileira protegia seu corpo (B).

 

4) Bethe Correia vai a knockdown.

5) Holm entra com um uppercut mortal (A).

6) E Bethe sofre seu nocaute mais brutal desde que caiu perante Ronda Rousey.

Pode ter parecido para muitas pessoas que Holly Holm estava em decadência por causa das três derrotas consecutivas, mas é preciso avaliar um pouco essa situação para entender o motivo dessa percepção estar errada. Contra Miesha Tate, quando a luta chegou ao quinto round, Holm já tinha vencido três rounds, e a desafiante só venceria aquela luta na decisão se conseguisse dois 10-8. Nas suas outras duas lutas, Holm enfrentou duas das melhores strikers da história do UFC, Valentina Shevchenko e Germaine de Randamie, duas lutadoras que tiveram carreiras espetaculares no muay thai e no kickboxing, e Holm bateu de frente com ambas. Todas as suas derrotas foram justificáveis e não é correto afirmar que ela está em decadência por causa disso.

Com a vitória, Holly Holm volta a figurar de forma respeitável na elite da divisão. A ex-campeã está em quinto lugar no ranking (antes da atualização), em terceiro e quarto estão Ronda Rousey e Raquel Pennington, respectivamente, e ambas foram derrotadas por Holm, e das que estão nas três primeiras posições (campeã, primeiro e segundo no ranking), apenas uma a venceu (Valentina Shevchenko). Pode-se dizer que Holly Holm ainda tem muito a oferecer a categoria, ao contrário de Bethe Correia.

email: kauemacedo96@hotmail.com    |    twitter: @kauemcd

Deixe seu comentário!